Mel, exemplo de “Cão Comunitário” mais popular de Cianorte

 

Ela não é funcionária nem hipocondríaca (que tem mania de doença) mas todos os dias está na porta da farmácia Droga Raia, no centro de Cianorte.  Ela faz jus ao tapete de entrada, escrito bem-vindo e lá se acomoda, principalmente nos dias de calor. Seu nome é Mel (mas para os íntimos é simplesmente Gorda), uma cachorra  sem raça definida, a popular  vira-latas. Porte médio para grande, com uma boa quantidade de reserva de energias, Mel foi motivo de muitos comentários nas redes sociais  dos cianortenses, recentemente. Até o momento, cerca de 1.800 curtidas e quase 500 compartilhamentos, entre a postagem como um todo e apenas uma foto sua.  O post original você confere aqui.

Tudo começou quando essa que vos escreve deu uma passada na farmácia para verificar o peso. Claro que a balança estava errada (as balanças de todo o Planeta mentem, viu?) e na saída viu uma funcionária tentando delicadamente tirar a Mel do tapete. Ela, claro, dormia em sono profundo e nem se deu conta da situação.  A justificativa foi de que alguns clientes reclamavam da presença daquela cliente.

Então, para defender a permanência da Mel ali em uma das portas (a farmácia é ampla, tem uma grande extensão para acesso dos usuários que não queiram passear nas proximidades da Mel) foi dito que o caso seria mostrado nas redes sociais para comprovar que se tem um cliente que reclama, outros dez apoiariam. E  para surpresa dos envolvidos na história, através das milhares de curtidas, compartilhamentos, notou-se que a Mel já é patrimônio cultural de Cianorte.

A figura mais popular de Cianorte, no momento, só tinha um papelão para dormir. Isso quando tinha, quando o vento ou pessoas não o levava… (Foto: Fernanda Takada)

Centenas de clientes manifestaram seu apoio, dizendo que dão prioridade à Farmácia justamente porque sabem que os funcionários são gentis não apenas com os fregueses mas com os animais também. Houve até quem ameaçou boicote caso a Mel não figurasse mais no cenário! E não foram poucas!  “Uma honra comprar na farmácia pelo carinho pelos animais! Me sino feliz por chegar lá e ver que está cada vê mais linda e saudável.  Se eu for lá e não encontrar ela, nunca mais volto. Eu e minha família e já aviso: família grande.”, escreveu Elaine Castilho.   “Ela é a cliente mais fiel do que esses nojentos que reclamam a presença dela, não se esqueça que no final vamos todos feder, ok?”, foi o recado direto de Rosicler Cavalari.  “Eu apoio e acho linda a iniciativa da Droga Raia, aliás é isso que me faz cliente: a humanidade presente neste comércio”, justificou Camila J. Antoneto.  Entre centenas de comentários favoráveis, um ou  outro se manifestou contrário, alegando o trauma que algumas pessoas tem de animais. “Ela sempre está lá no cantinho dela, nunca vi fazer mal a ninguém. Mal quem faz são essas pessoas ignorantes”, destacou Lucimar Lucena.

Foi então que surgiu a ideia de fazer valer uma lei desconhecida pela maioria das pessoas que gostam de animais. É a lei paranaense de número 17.422 de 2012, em seus artigos 7º e 8º que dizem:

Art. 7º – O animal reconhecido como comunitário será recolhido, esterilizado, identificado, registrado e devolvido à comunidade de origem.

Art. 8º  – Para efeito desta Lei considera-se:

I – Animal comunitário: aquele que estabelece com a comunidade em que vive laços de dependência e de manutenção, ainda que não possua responsável único e definido;

II – Cuidador: membro da comunidade em que vive o animal comunitário e que estabelece laços de cuidados com o mesmo.

E então formou-se uma corrente de solidariedade em prol da Mel! Essa que escreve as mal traçadas linhas a fotografou, pois ela não colaborou muito nas fotos realizadas anteriormente pelas funcionárias;  um programador desenvolveu o crachá e cartaz que alerta sobre a Lei 17.422 de 2012; um empresário cedeu a impressão dos mesmos, e o EMPÓRIO ANIMAL PETSHOP se prontificou a doar a casinha. Como a Mel é um pouco grandinha, o PET SHOP QUATRO PATAS auxiliou na entrega imediata da mesma, já que nesses dias São Pedro esqueceu as torneiras abertas.  E ainda duas clientes da Droga Raia doaram os cobertores para a mascote do local.

Se existe uma Lei, vamos colocar em prática!

O ideal é que não houvesse animais nas ruas, que cada um tivesse um lar. Porém, enquanto isso não acontece muitos moradores e comerciantes cuidam de muitos que por anos ficam nas localidades diversas. E por que não proporcionar o mínimo de conforto aos mesmos? Esterilizados e chipados, esses animais inclusive evitam que outros estabeleçam na área, pois são territorialistas.

Portanto, se na região em que mora ou frequenta com mais intensidade há animais que já são cuidados pela comunidade, lute por seus direitos. Solicite ao município a castração e chipagem dos mesmos, ou peça ajuda para em conjunto com os amigos custear os gastos, coloque uma coleira com identificação nos animais, disponibilize abrigo e divulgue que o mesmo não é um cão de rua, mas sim um Cão Comunitário. Pois isso faz a diferença inclusive no sentido de coibir maus tratos.  Para ter conhecimento da íntegra da Lei, clique aqui.

A casinha é monitorada por câmeras e a esperança é que vândalos não a levem (Foto: Aida Franco)
Sono dos justos (Foto: Aida Franco)

 


“Já faz um tempo que a Gorda apareceu por lá. Todos os funcionários a amam e de um tempo pra cá nos apegamos muito a ela. Duvido você que gosta de cachorro entrar lá e não a perceber, não tocá-la,  não fazer um carinho.  Isso é ser amável. Todos os seres humanos deveriam ter um pouco mais de bondade no coração. Não consigo entender por que tem gente que despreza. É triste,  mas tem. Por isso cuidamos dela com muito amor. Ela não faz mal a ninguém.  Achamos maravilhosa a atitude de  todos que ajudaram, merecem ser muito abençoados! A gente não imaginava que ela era tão querida assim e isso é lindo”. Lilian Bessa, funcionária da Droga Raia

 Na manhã de sábado, 28-10-17, dia seguinte à entrega da casinha para a Mel, veio a notícia de que dois homens, aparentemente embriagados, roubaram seus cobertores. E quem soube da notícia ficou indignado. A moradora de Cianorte  Luzia Lavanholi também achou isso o cúmulo, pois se um humano é capaz de roubar o cobertor de um cão, ele é capaz de tudo! Mas olhem que bacana, ela pegou um grande cobertor e dividiu em 8 partes.  E se mesmo assim alguém levar novamente embora, terão outros 7 pedacinhos esperando pela Mel! Ah, em tempo, a casinha será parafusada no chão por um marceneiro que já se prontificou a fazer o trabalho, como forma de ajudar nessa corrente de solidariedade e boa fé na humanidade.
Para evitar que um cobertor inteiro seja roubado novamente, foram feitos pedaços dele para que sejam usados separadamente (Foto = Luzia Lavanholi)
A Mel aprovou o pedaço de cobertor. Se forem roubar novamente, ao menos não levarão inteiro. O gesto e a foto é de Luzia Lavanholi.
Na noite desse sábado (28-10) o marceneiro e restaurador Osvaldo Longhi cedeu um tempo de suas horas de trabalho para ir até o local e fixar a casinha no chão, para evitar ou dificultar o seu roubo.  Vale lembrar que a Lei  17.422/12 ampara a permanência da casinha e da Mel no espaço público.
A base foi fixada para evitar ou dificultar roubo. (Foto = L.B)

 

Agora a Mel é garota propaganda de uma página para estimular a Lei do Cão Comunitário. Curta e compartilhe, aqui.

Sobre Aida 39 Artigos
Jornalista, com graduação e especialização em Patrimônio Histórico pela UEPG; Guia Especializada pela Embratur; mestre e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC - SP e Técnica em Vestuário pelo CEEP CNE. Experiência em Ensino Superior, assessorias à ONGs, associações de classe e jornal diário. Voluntária em entidades ambientalistas.
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