Irmã Benigna, no nome e nas ações

Ela tinha apenas 9 anos de idade quando decidiu que ia ser irmã. Mas para milhares de famílias, ela é uma verdadeira mãe, ela é Irmã Benign e está à frente daAssociação de Assistência e Promoção Rainha da Paz (Foto = Aida Franco)

(Texto:  Aida Franco)

A palavras benigno vem do latim benignu, que é sinônimo de suave, brando, agradável. Benigna é o nome de uma mulher que desde criança optou por amenizar os sofrimentos das pessoas mais carentes. Benigna é literalmente uma pessoa suave, branda, agradável e mais, extremamente lutadora.

Erexim, Rio Grande do Sul, Brasil, 1948. Benigna Nazari tem apenas nove anos e uma decisão, entrar para o convento. A atitude preocupa a família, mas é dentro de casa que a garota tem um forte exemplo de caridade. Seu pai, um homem que trata os índios da que vivem na região com grande afeição e respeito. Decisão tomada, a garota viaja para o centro sul do Paraná, mais exatamente para Irati, a fim de estudar. Com 17 anos, já na cidade de Curitiba ela realiza seu primeiro grande sonho e torna-se Irmã. Em São Loureço do Oeste, no estado de Santa Catarina, permanece por mais 17 anos, para em seguida retornar à sua cidade Natal, Erexim, onde fica por mais nove anos.

Em uma entrevista, aos 50 anos, ela afirmou que “se eu tivesse que nascer novamente, gostaria de ser aquilo que sou.” E tem melhor vida que essa? A pessoa desejar ter nascido o que é?? E a garota que um dia se espelhou  no exemplo do pai, hoje é esperança de um presente e futuro mais digno para milhares de  crianças que deixaram o caminho das ruas rumo à escola, alimentação adequada, atendimento médico e odontológico garantido e oportunidade de conhecer uma profissão que assegure inclusão no mercado de trabalho antes mesmo de completar a idade mínima de permanência no local, que é de 17 anos.

Sempre tive meus trabalhos relacionados com pessoas carentes, e no envolvimento com as famílias sentia necessidade de amparar os anseios das crianças que sofriam marginalização indo, por sua vez, mergulhar no submundo das drogas, onde os resultados já são conhecidos pela sociedade”. (Irmã Benigna, junho de 1998).

UMA FACA POR UMA CAMISETA

Saúde física e alimentar, sempre foi base na Instituição (Foto: Rainha da Paz)

Há 25 anos Cianorte, no Noroeste do Paraná, vivenciou uma série de conflitos provocados por uma turma de jovens envolvida com drogas e brigas que aterrorizava a periferia da cidade, principalmente a região da Vila Operária. “A turma do Carrapicho”, como os integrantes ficaram conhecidos, após um longo período de reinado ficou órfã, com a morte do líder que dava nome ao grupo.

Mas os problemas originados por conta da questão das drogas, mesmo que em pequenas proporções continuaram. Prova disso teve Benigna Nazari, transferida para Cianorte, no ano de 1992, com o propósito de trabalhar no Recanto dos Velhinhos, com pessoas que precisam não só de pão, mas de afeto. “No asilo há pessoas que carecem muito de amor e atenção. Comecei  a trabalhar com as vovozinhas, mas vi que ficar somente com elas era muito pouco, enquanto que por outro lado percebia que nos fundos do asilo alguns meninos iam se drogar”, relembra a irmã.

Coincidentemente nesta mesma época uma das irmãs de Carrapicho acabava de cumprir pena no presídio de Curitiba e estava retornando à cidade. E o que poderia ser motivo de problemas para uns, foi solução para Benigna. “Quando soube que uma das irmãs de Carrapicho, estava retornando à Cidade, resolvi procurá-los porque sabia que ela exercia certa influência sobre os jovens da periferia e que por sua vez havia uma grande influência com as drogas”.

Padre Wilson Galiani no início da formação da Rainha da Paz, ofereceu ajuda essencial (Foto: Rainha da Paz)

Oferecendo o apoio que a garota certamente não havia encontrado anteriormente, Benigna ganhou uma aliada na proposta de levar uma saída diferente daquela que os conduziam aos tóxicos. Após algumas visitas no asilo, a jovem ofereceu sua casa para as primeiras reuniões com quatro menores. O período escolhido foi o da tarde, pois eram nestas horas que não estavam nas ruas pedindo esmola ou praticando atos ilícitos.

O grupo foi crescendo e Benigna deparou-se com pedidos de uma chance, um emprego! A ideia central era arrumar trabalho no próprio asilo, com isso surgiu a ideia de fazer uma marcenaria. Com o apoio da Renovação Carismática e do Padre Wilson Galiani, que contribuíram com a arrecadação de fundos, o sonho de construir uma marcenaria imediatamente caminhou para a realidade.  Tão logo a proposta foi divulgada, a sociedade cianortense começou a se mobilizar. Pessoas que continuam fazendo questão de permanecer no anonimato ajudaram para que em menos de 15 dias estivessem disponíveis duas máquinas para que os trabalhos fossem iniciados. A partir de então, foi formada oficialmente a Associação de Assistência e Promoção Rainha da Paz. “Nunca me esquecerei de quando eu troquei uma camiseta por uma faca”, relembrou emocionada a irmã Benigna.

 

Sobre Aida 39 Artigos
Jornalista, com graduação e especialização em Patrimônio Histórico pela UEPG; Guia Especializada pela Embratur; mestre e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC - SP e Técnica em Vestuário pelo CEEP CNE. Experiência em Ensino Superior, assessorias à ONGs, associações de classe e jornal diário. Voluntária em entidades ambientalistas.
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