Educação Inclusiva: estudante do Igléa Grollmann com síndrome de Down conclui Ensino Médio

Maria Clara, sua formatura é uma conquista coletiva

Na última sexta-feira, 22 de dezembro de 2017, o auditório da Unipar em Cianorte levantou-se para aplaudir a formanda Maria Clara Morezzi da Silva, 20 anos. Ela é o símbolo de que quando o estudante, apoiado por sua família e todo o Colégio em que estuda, incluindo os colegas, os funcionários dos mais variados níveis e o corpo docente,  consegue subir os mais altos degraus. Maria Clara é a primeira garota com síndrome de Down a concluir o Ensino Médio em Cianorte. Todos vibraram com sua conquista que na verdade é o reflexo de uma cultura escolar implantada no Colégio Estadual Igléa Grollmann.  A professora Ana Floripes, outra grande homenageada da noite, participou diretamente de cada semente lançada ao longo de seis anos, que resultou nos frutos homenageados durante a colação de grau, recheada de emoções. Três turmas participaram da colação de grau: René Descarte, Galileu Galilei e Isaac Newton em um total de 92 alunos. As fotos e vídeos da formatura são de autoria da jornalista Aida Franco, as demais imagens são de arquivos pessoais.

Assista ao momento emocionante em que formandos, professores e plateia levantam-se e aplaudem Maria Clara!

Auditório da UNIPAR aplaudindo em pé! Momento maravilhoso, resultado do trabalho de profissionais incríveis, família…

Posted by Aida Franco de Lima on Thursday, December 28, 2017

E os resultados extraordinários alcançados extrapolaram o recinto escolar pois proporcionou a criação do  Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil – Capsi, em Cianorte, pois mostrou a demanda reprimida de pacientes que necessitavam de acompanhamento especializado. Em parceria com o Ministério Público de Cianorte, sob a liderança da Promotora Elaine Lima, a Justiça determinou que  o Município de Cianorte efetivasse o Centro. Conheça um pouco dessa bela história através dos depoimentos dos alunos e professores.

“Estar incluído significa pertencer, estar junto, compartilhar, participar da sociedade e buscar um futuro sem separação. Para isso é preciso coragem, dedicação, respeito, perseverança, humildade e muito amor. É com esse testemunho que digo: essa inclusão é para toda a família. E a minha família agradece a todas essas pessoas tão especiais da comunidade escolar do Colégio Estadual Igléa Grollmann. Queremos que saibam que nos proporcionaram inúmeras alegrias, simplesmente por sentirmos parte de tudo, sem separação. Com todo o nosso carinho e respeito a todos”. Família da Maria Clara Morezzi da Silva.

A fala da professora Ana Floripes, durante a cerimônia de colação de grau, resume um pouco da história em que está inserida Maria Clara.

“Há coisas na vida que não se repetem. São sempre como se fora a primeira vez. Ser Professora de Apoio Educacional Especializado de uma turma como a da Isaac Newton é um privilégio. Um sentimento imensurável. Durante seis anos vivemos muitas experiências positivas. As mesmas se misturaram e ao final não conseguíamos mais separá-las, tornaram-se unidade. Aos poucos fomos nos humanizando e para que isso acontecesse praticamos a justiça, a afetividade, a tolerância, a gentileza e o bom humor.

A justiça foi praticada em vários momentos e seu ápice, com certeza: a mobilização para a implantação e implementação do Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil – Capsi, de Cianorte e como parceiro principal o Ministério Público de Cianorte, sob a liderança da Doutora Elaine Lima. No ano de 2013 o projeto “Inclusão de estudantes com transtornos globais do desenvolvimento” ficou entre os dez melhores no Prêmio Victor Civita. Ele concorreu com mais de 2.500 projetos do Brasil. No ano de 2016 o projeto Identidade vs. Preconceito classificou-se em primeiro lugar no Prêmio Paratodos de Inclusão Escolar. Ou seja, o trabalho realizado a partir dessa turma foi reconhecido nacionalmente por duas vezes.

Os estudantes participaram ativamente da vida um dos outros, inclusive na da colega que sofria graves problemas na área da saúde mental. Ninguém ficou indiferente! Hoje ela não se formará   com a turma, mas, em nenhum momento foi esquecida. A indiferença não tomou conta da situação. A experiência foi marcante!

Sabe-se que só existem três maneiras de se transformar a sociedade: guerra, revolução e educação. Dentre as três, a Educação é a viável, porém os efeitos só se tornam visíveis em longo prazo. Assim a educação deve ter como finalidade a formação do homem para que este possa realizar as transformações sociais necessárias à sua humanização, buscando romper com o os sistemas que impedem seu livre desenvolvimento. Para os teóricos Duarte (2003) e Saviani (1997) o trabalho educativo produz nos indivíduos a humanidade, alcançando sua finalidade quando os indivíduos se apropriam dos elementos culturais necessários a sua humanização.  Famílias, esta noite é de vocês. Aqui se celebra o sucesso da educação que deram aos seus filhos. Hora de comemorar e refletir também.

Parafraseando o colega de magistério Professor Luís Roberto Barroso: Queridos estudantes não se esqueçam de ser felizes. Nunca menospreze o fato de que a felicidade está ligada com atitudes. Sejam simples, o encanto reside na simplicidade. Voem, mergulhem, caminhem, parem e observem. Encontrem o próprio caminho. O maior naufrágio é não partir. Não tenham medo de tentar, de recomeçar e de insistir, mas não esqueçam de que nem tudo conseguimos no tempo que queremos. Então, tenham paciência e aguardem um melhor momento. Muitas vezes só conseguiremos segurança após inúmeras quedas. Todavia, não desistam daquilo que é necessário ser executado. Sejam éticos, bons, justos, afetuosos, tolerantes e tenham bom humor. O mundo precisa de exemplos, há muitos discursos descontextualizados de práticas. Logo, tornam-se frios, vazios e sem esperança. Meu coração está apertadinho. É hora de seguirmos caminhos diferentes, mas vocês estão preparados. Sigam em paz, meus amores. Certamente os procurarei na escola no próximo ano letivo. Vocês levarão um pouco de mim e ficarei com muito de vocês. Gratidão eterna. Sentirei muitas saudades, mas posso dizer quanto ao nosso dever: “Fizemos um bom trabalho!” “. (Ana Floripes)

 


“O que dizer desta turma. Bom para quem não nos conhece, poderá olhar e pensar: uma turma comum com uma estudante com síndrome de Down. Mas garanto que essa turma não tem nada de normal. Ela me surpreendeu em vários momentos. Você vê uma garota com síndrome. Eu vejo uma colega de sala de aula. Nada foi impossível pois sempre trabalhamos juntos e conseguimos nossos objetivos. Hoje estamos nos formando no Ensino Médio.” Renan Lucas Bernardi, 17 anos

 

Lecionar não é uma profissão, é tocar o futuro no presente por meio dos alunos. A turma Isaac Newton 2017 representa o sucesso pedagógico e humano do Colégio Estadual Igléa Grollmann. Em sua maioria não são adolescentes comuns da contemporaneidade, são seres humanos que respeitam a diversidade, a inclusão, superam dificuldades se unindo e ajudando uns aos outros. A formatura dessa turma representa esperança, pois nós professores, estamos entregando para sociedade alunos preparados para atuar como cidadãos críticos. A turma Isaac Newton é um presente para todos nós.  Professora de Inglês e Madrinha da turma: Rosa Lici Luchetti Maidl

 


“Desde que eu ingressei no Ensino Médio, participei de uma experiência gratificante que está concluindo um de seus capítulos agora. Aqui sempre foi visível o fator humano, sempre caminhamos juntos. Com as lições aprendidas e o afeto compartilhado nesses últimos anos, creio que nós nos tornamos “humanos”. Enzo Galego Todão, 17 anos

 

Alessandro Carvalho Lopes  é Agente Educacional II e destaca o trabalho realizado com alunos com necessidades especiais. “Quando iniciamos o recebimento dos estudantes com alguma necessidade educacional diferenciada em nosso Colégio, anos atrás, fomos instruídos a realizar certos tratamentos que comumente não eram usados com o restante do corpo discente. Com o passar dos anos, e as adequações, tanto eles como nós funcionários passamos a tratá-los e sermos tratados de acordo com os demais estudantes. Eles deixaram de ter um tratamento diferenciado, e isso os ajudou a se sentirem inclusos como os demais, isto é, se necessário, chamamos a atenção, elogiamos e os felicitamos. Hoje eles se sentem totalmente incluídos no meio escolar, ou seja, não se sentem diferenciados, pois realmente não são, pelo menos dentro do colégio. Há dificuldades a serem superadas, mas com a colaboração dos amigos de turma tudo flui. Após anos de trabalho e com a ajuda dos professores e funcionários, eles(as) demostram alegria ao pertencerem à nossa comunidade escolar e também nos ensinam muito a cada dia”.

 


O aluno Alan Carlos Calefe, 17 anos, da Terceira Série, turma René Descartes, descreveu o trabalho realizado ao longo dos anos no Colégio Iglea, do qual ele também participou indiretamente.

“IN: Inclusão Natural Para descrever o trabalho realizado pela professora Ana Floripes Berbert no 3° ano Isaac Newton, é necessário frisar que os resultados alcançados são fruto de anos de convivência e empenho dedicado a cada aluno desse meio. O prestigio que gerou premiações e congratulações rodeiam o processo inclusivo de adolescentes especiais no mesmo ambiente social com os demais, dando-lhes o direito de se sentirem socialmente ativos, firmando sua confiança, enquanto aprimora a cultura de uma geração direcionada a empatia. Por meio da intenção implantada, outra situação nítida que percebemos entre os alunos é que a diferença não interfere nas relações. Independente da orientação sexual, estilos musicais, etnia, religião ou capacidade cognitiva, o funcionamento da coexistência só é possível com o respeito incondicional a todos. Sem delongas, esse trabalho ainda é incapaz de mudar drasticamente a realidade, porém, é o mais próximo feito a tornar o mundo em um lugar melhor de se viver.”


“Foi incrível ter tido a oportunidade de conviver com a Maria Clara durante todos esses anos e ver o quanto ela se desenvolveu mesmo dentro das limitações dela. Muito gratificante! Uma história que mostra a importância da presença da inclusão  e a diversidade em nossa vida.” Roberto Gumieiro Junior, 17 anos.

“Nossa turma é bem acolhedora, digo isso porque a minha chegada foi após o trabalho já estar sendo realizado, então participei do resultado. Vi também que a Maria Clara se sente incluída e é como se nós fôssemos a segunda família dela. Sinto-me grata por ter passado por essa turma e enxergar a diferença como uma coisa positiva que nos une. Portando, diante desse processo de aprendizagem o dia de hoje não é só uma formatura, mas sim mais uma etapa vencida com louvor”.  Nayara Bueno, 17 anos
HOMENAGEM DA TURMA 
Professora Ana, Você tem sido como uma mãe para todos nós durante esses anos. É um ser humano cheio de luz, é inspiradora e admirável, alguém que entra na vida das pessoas para fazer a diferença. És como uma jardineira que cuida com amor do terreno e depois colhe todos os seus belos frutos. Não há palavras para descrever o quão épica foi a nossa trajetória até aqui, uma história linda que transcendeu muitas coisas positivas em todos os envolvidos no processo. Os resultados do projeto Identidade vs. Preconceito e suas atividades realizadas em nosso colégio desde 2012, foram além dos muros da escola, favorecendo até mesmo o nosso município, com a implantação do Centro de Atenção Psicossocial Infantil (CAPS i). Também fomos privilegiados por poder conviver com a Maria Clara durante quatro anos, e graças à nossa persistência pudemos observar o quanto ela se desenvolveu mesmo dentro de suas limitações, sendo agora a primeira aluna com Síndrome de Down a se formar no ensino médio em nossa cidade. Através de todo preparo que proporcionou aos seus alunos durante esse tempo, você nos deu a oportunidade de aprender a conviver com as diferenças e aprender a respeitá-las, nos mostrou a importância da compreensão e do respeito diante da diversidade. Obrigado por nunca ter desistido de nós e por nos mostrar e conduzir para o caminho da humanização. Você tem uma imensa contribuição na formação de nosso caráter e em nosso crescimento pessoal. Finalmente chegou o tão falado e aguardado dia da nossa colação de grau, vencemos mais uma etapa. Pode ter certeza que levaremos todas essas experiências e seus ensinamentos para a vida. Te eternizaremos em nossos corações enquanto nós vivermos, jamais será esquecida. Parte de nossa jornada termina aqui, agora chegou a hora de cada um de nós iniciar uma nova. Obrigado por tudo, te amamos pra sempre!

É possível dizer que os alunos que se formaram são especiais em todos os sentidos, com talentos diversos que os farão excelentes profissionais. A estudante Maria Julia, por exemplo, foi a responsável pelo figurino da professora Ana. Uma prova de que nossos jovens são joias preciosas, que precisam apenas de lapidação, dentro e fora do ambiente escolar.

 

 

 

Vinicius Craveiro, 17 anos, o Dorminhoco, junto com a professora Ana e Maria Clara

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Veja Homenagem da Terceira Série, turma Isaac Newton à professora Ana Floripes. As imagens do vídeo conta um pouco da trajetória de estudantes e profissionais da educação do Colégio.

Sobre Aida 39 Artigos
Jornalista, com graduação e especialização em Patrimônio Histórico pela UEPG; Guia Especializada pela Embratur; mestre e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC - SP e Técnica em Vestuário pelo CEEP CNE. Experiência em Ensino Superior, assessorias à ONGs, associações de classe e jornal diário. Voluntária em entidades ambientalistas.
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