Cães comunitários despertam moradores e impedem assalto em condomínio de Cianorte

(Textos e fotos = Aida Franco)

Era uma noite como outra qualquer, mas de repente Grandão e Princesa começaram a latir sem parar até que a vizinhança acordasse.  E o barulho não foi por acaso. Um indivíduo havia pulado para o interior de um dos blocos de prédio, do condomínio Century Park – Martelli. Quebrou uma vidraça e saiu para esconder-se em uma construção inacabada. Porém, ele não sabia que além das câmeras de segurança e dos vigias humanos, ali estavam sentinelas que não dormem no ponto. Alertados pelo barulho dos cães, os vizinhos chamaram a PM. Mas quando os militares chegaram os cães já tinham feito parte do serviço, evitando a invasão das residências, enquanto o invasor havia fugido amedrontado.

Grandão, Princesa, Sorriso, Velhinho…  São cães comunitários que há cerca de um ano apareceram na região e por ali permaneceram e são cuidados por moradores, sensíveis aos direitos dos animais. São animais protegidos pela Lei Estadual 14.422/2012, em seus artigos VII e VIII, que institui o Cão Comunitário. Tal Lei permite que os animais sejam abrigados e alimentados nas vias públicas. Quem os maltrata, como demais animais, está sujeito à penalidades da Lei de Crimes Ambientais, a n.º 9.605 de 12 de fevereiro de 1998

O local onde  vivem, é um verdadeiro “cãodomínio”, com casinhas individuais, dispostas sobre paletes. Elas estão alocadas na lateral do passeio e, portanto, não provocam qualquer incômodo. A organização dos moradores que cuidam dos animais possibilita que o local esteja sempre limpo. “Nós trocamos a água todos os dias e em dias ensolarados deixamos os cobertores no sol”, explica um das voluntárias, Suzi que junto com os colegas Edsom ,Rafa, Nathassia se revezam nos cuidados. E em cada porta das casinhas, há um CD pendurado, a fim de evitar que os pássaros comam a ração ou que virem petiscos para os cães. Em toda a extensão das casinhas, há uma lona, que minimiza a terra que desce com a chuva. “Eles são castrados, vacinados, damos remédio contra vermes e parasitas e uma vez conseguimos um desconto em um pet shop e levamos todos para o banho”, conta Susy lembrando que todos têm as respectivas carteirinhas de vacina.

As casinhas ficam dispostas na lateral da calçada e uma lona diminui o acúmulo de terra nos dias chuvosos

 

A casinha do antigo inquilino, Grandão agora está desocupada

 

Cada um tem seu recinto particular. Esse aí é o Velhinho

 

Eles compartilham da mesma água que é trocada diariamente

 

Garrafas com água para garantir o abastecimento

Mas nem tudo são flores na vida dos moradores do “cãodomínio”. Afinal, há quem desconheça a Lei do Cão Comunitário e acredita que o fato de não gostar de animais lhe permite maltratá-los ou exigir que sejam retirados da região, acionando a Justiça. Mas é mesma Justiça que lhes deve dar amparo. Alguns animais morreram agonizando envenenados, outros foram salvos a tempo. Outro foi atropelado, em uma curva íngreme. Até o Grandão, o mesmo que, junto com a Princesa,  evitou que residências fossem assaltadas, teve de ir embora.

Mesmo dócil, algumas pessoas sentiam-se incomodadas por seu tamanho e sua curiosidade por veículos motorizados. Princesa e Grandão eram parceiros e agora a vira-latas de olhar dócil parece um pouco desconsolada com a falta de Grandão. “O ideal seria que eles fossem adotados”, explica Suzy que sabe da dificuldade que é encontrar lar para animais adultos e sem raça definida.

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Mas o fato de não terem um lar definitivo não os impedem de terem atenção de outros moradores com coração mais aberto. “Um de nossos vizinhos passeia com eles pela quadra”, conta Susy.

Uma soneca, entre uma brincadeira e outra
A pequena Beatriz nem se importa com raça, para ela são apenas animais que merecem respeito e adoram um carinho

Talvez quem se incomode com esses animais deveria mesmo agradecê-los por estarem ali. Afinal, são territorialistas e impedem que outros se acomodem no local. São brincalhões e já conhecem os moradores da região, principalmente aqueles que lhes dão carinho e denunciam quem vem de fora com más intenções.

 

NOTA DA REDAÇÃO = É importante ressaltar que além de vigiarem, os animais também são constantemente vigiados por moradores que estão atentos para acionar a Justiça diante de qualquer dano que seja causado aos mesmos.

 

NOTA DA REDAÇÃO II – Infelizmente há pessoas que não aceitam os animais no entorno, mesmo que esses não lhes façam mal. Após a publicação dessa reportagem, na data de 15-12-17, a página Cianorte É Assim, fez a seguinte denúncia em relação a um empresário que solta bombas no local para assustar os cães, impactando também a fauna silvestre. Salientamos que se há alguém errado no local, são os humanos, pois a área está dentro de uma mata nativa e portanto, são os animais seus primeiros herdeiros.

 

 

 

Sobre Aida 39 Artigos
Jornalista, com graduação e especialização em Patrimônio Histórico pela UEPG; Guia Especializada pela Embratur; mestre e doutora em Comunicação e Semiótica pela PUC - SP e Técnica em Vestuário pelo CEEP CNE. Experiência em Ensino Superior, assessorias à ONGs, associações de classe e jornal diário. Voluntária em entidades ambientalistas.
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